Reflexões no Divã...

                           Dra. Carla Navarro Baltazar Feijoo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transtorno Opositor Desafiante

(TOD)

Geralmente as crianças passam por fases difíceis que muitas vezes poderiam ser descritas como "de oposição", especialmente quando se está cansada, com fome, estressada ou chateada. Nesses momentos, elas podem discutir, conversar, desobedecer e desafiar os pais, professores e outros adultos. Há também momentos no desenvolvimento normal que o comportamento de oposição é esperado, como por exemplo entre 02/03 anos de idade ou até mesmo na pré-adolescência. O comportamento hostil se torna uma preocupação quando é frequente e consistente, que se destaca quando comparado com outras crianças da mesma idade e nível de desenvolvimento, e quando ela afeta a família da criança, o meio social e a escola. Para uma hipótese de TOD, os sintomas citados acima devem persistir por pelo menos 6 meses, e causar prejuízo social e acadêmico significativo, além de destoar do comportamento observado em outras crianças da mesma idade e nível de desenvolvimento.

O Transtorno Opositor Desafiante, (TOD), é um transtorno classificado pelo DSM-V como integrante do grupo de transtornos de conduta, disruptivos e de controle de impulsos. Caracteriza-se por um padrão global de desobediência, desafio e comportamento hostil. A criança ou adolescente discute excessivamente com adultos, não se responsabiliza por sua má conduta, incomoda deliberadamente os demais, possui dificuldade em aceitar regras, e perde facilmente o controle quando as coisas não saem conforme desejou.

Devido aos sintomas mencionados, existe nestas crianças ou adolescentes um prejuízo significativo no funcionamento social e acadêmico. Estão constantemente envolvidas em discussões e são muitas vezes rejeitadas pelos colegas de escola, o que lhes traz problemas ao nível da auto-estima.

Os sintomas iniciam-se antes dos 08 anos de idade e esta perturbação apresenta-se, em número significativo de casos, como um precursor do transtorno de conduta, forma mais grave de perturbação disruptiva do comportamento.

A prevalência é de 2 a 16% da população em idade escolar, sendo mais comum em meninos do que meninas.

Não existe uma causa específica para este transtorno, mas acredita-se que fatores genéticos associados a desencadeadores domésticos podem estar associados. O TOD é mais comum em filhos de pais que apresentam transtornos de conduta, humor, personalidade antissocial ou uso abusivo de drogas, e também nos casos de separação dos pais e alienação parental, quando a criança vivencia situações e experiências negativas.

Os indivíduos com TOD geralmente apresentam um padrão contínuo de comportamento não cooperativo, desafiante, desobediente e hostil, com resistência à figura de autoridade. Para o diagnóstico de TOD, pelo menos 04 das seguintes características deverão estar presentes:

  • Frequente acessos de raiva
  • Discussões excessivas, muitas vezes, questionando as regras
  • Desafio e recusa em cumprir com os pedidos de adultos
  • Deliberada tentativa de irritar ou perturbar as pessoas
  • Culpar os outros por seus erros e mau comportamento
  • Muitas vezes, ser suscetível ou facilmente aborrecido pelos outros
  • Frequente raiva e ressentimento
  • Agressividade contra colegas
  • Dificuldade em manter amizades
  • Problemas acadêmicos
  • Embora não haja nenhuma causa claramente compreendida, acredita-se ser uma combinação genética, ambiente, incluindo:
  • Disposição natural de uma criança
  • Limitações ou atraso no desenvolvimento da capacidade de uma criança no processo de pensamento e sentimento
  • Falta de fiscalização
  • Inconsistência ou disciplina severa
  • Abuso ou negligência

Muitas vezes o TOD ocorre em comorbidade com outros transtornos, incluindo transtornos de humor, ansiedade, conduta e déficit de atenção/hiperatividade, aumentando a necessidade do diagnóstico precoce e intervenção, para desenvolver ações preventivas junto à criança, família e educadores. As patologias que surgem habitualmente associadas ao TDAH são os comportamentos de desafio e oposição, ansiedade, transtornos de conduta, tiques e perturbações do humor. Assim, os comportamentos de oposição constituem a maior percentagem de casos. É importante ressaltar que o comportamento de oposição pode evoluir para alterações mais sérias do comportamento, por isso é de suma importância consultar um profissional para esse diagnóstico.


Frente a este quadro, torna-se muitas vezes necessário um acompanhamento psicológico. O psicólogo pode ajudar a criança ou o adolescente a lidar com suas frustrações e a encontrar canais mais saudáveis de escoamento dos sentimentos de hostilidade, bem como ajudar os pais a lidar por essa difícil e desgastante tarefa. A intervenção e tratamento precoce do TOD são fundamentais para melhorar o comportamento e a qualidade de vida da criança com este transtorno, além de prevenir que evolua para um Transtorno de Conduta.

O tratamento pode incluir a psicoterapia numa abordagem cognitivo-comportamental, que busca melhorar as habilidades de resolução de problemas, de comunicação e controle de impulso, e a psicoterapia familiar, que promove mudanças dentro do ambiente doméstico, e visa melhorar também as habilidades de comunicação e as interações familiares. Quanto à medicação, embora não seja considerada eficaz para o tratamento do TOD, pode ser usada quando outros transtornos estiverem presentes, caso o especialista considere conveniente.

Vale ressaltar que nem todo comportamento opositor e desafiador é um transtorno, e algumas vezes os pais necessitam de ajuda para estabelecer limites. Embora representem uma figura de autoridade para os filhos, não significa que deverá desempenhar somente funções punitivas. Por isso, é importante regras firmes e claras, mas flexíveis para permitir experimentação e escolha, respeito e acolhimento para ouvir as demandas da criança, e liberdade que permita o processo de crescimento e construção de individualidade.